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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

FRACASSADO


Ele estava realmente desesperado. Pra onde quer que lançasse seus olhos, nada lhe voltava com esperança. O medo lhe tomava por inteiro, a angústia lhe abatia co a força de um elefante. Defendia-se de si mesmo, lutava contra o auto-boicote, tentando, em vão, boicotar-se primeiro. Mas já não era mais tão fácil. Precisaria de ajuda e das fortes. nada que houvesse na Terra seria capaz de lhe dar segurança ou mesmo a falsa modéstia de ser capaz de seguir em frente. Ele estava fadado ao fracasso e sabia disso.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MORRENDO DE PÔCO - História de Matuto IV

Eu lembro como se fosse hoje, dona. Tava quase pra fora do celêro quando vi, bem no cantinho, lá do lado do hómi uma égua deitada, bem amuadinha. Foi aí que deu dó, a sinhóra precisava de vê... Tinha um fiotinho lado dela, mas táva morto, todo sujo de sangue, terra e páia. Deve de tê nascido morto já. E a coitada da égua tava sofrendo por demais, dava prá vê nos óio dela a tristeza do peito.

Eu num sei bem o que foi que aconteceu, não, mas acho que o grito que eu escuitei era dela, na horinha que viu seu fiote morto. Acho que os cavalo tudo deve de tê assustado e saíram correndo atrás da mãe que deve de tê arrastado o fiote prá pedir ajuda. E esse hómi aí deve de tê trazido os cavalo e as égua tudim de vorta.

Eu só num sei mêmo quem era o tar do hómi, môça. Nunca vi pelas região. Usava umas rôpa de pano surrado, chapéu de páia e tinha barba. Era um hómi véio já, negro de pele e pé descarço. Despois fiquei sabendo que anda por aí, cuidando dos bicho, das planta e dos rio. Mas que nunca na vida disse uma palavrinha com ninguém.

É difícil, numa situação dessa, moça, a égua sobrevivê. Ela vai morrendo de pôco em pôco. Num dá coragem de nóis matá, não. É dor de mãe, sabe? A sinhóra é mãe, dona? Eu tamém num tenho filho, não, mas mãe é mãe, né? Nóis respeita. Num importa se é de gente ou de bicho. Por isso que nóis num mata o porco na frente da mãe dele. Tem que tirá do chiquêro pra podê matá um, senão a mãe morre junto. E morre de desgosto.

A mãe do porco ataca nóis se pensá que nóis tâmo fazendo o que tâmu mêmo fazendo. Já vi gente que pra se defendê da porca, meteu a faca na barriga da coitada. Judiação! Perdeu o bicho e a carne tamém. Carne de porco num pode tá suja de sangue, prusque estraga e num dá prá comê. Prá fazê a bichinha pará de sofrê, nóis taca a facada no peito. Mas aí já é tarde, dona... Não tem mais porco assado prá comê.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

GALINHA NUM GRITA - História de Matuto III

Depois que eu desci de vorta, vortei pro curral pra terminá de tirá leite das vaca. E como num achei nada, num me procupei em oiá em vorta. Se a sinhóra soubesse e se eu soubesse tamém, nem tinha oiado, prusque deu dó de vê, dona...

Como eu vi? Óia, eu tive que vortá pra casa cos leite das vaca, né? O caminho tinha que passá pelo celêro dos cavalo, que é o mais perto, então eu fui. Minha Nóssa Sinhóra, tomei um susto, dona! Os cavalo tava tudim lá! E eu tinha acabado de vê cos meus próprio ôio que a terra há de comê... Num tinha nada, nada! E depois tinha tudo vortado, juro que num entendi o que tinha acontecido, não.

Dei de entrá lá e tomei ôtro susto que a sinhóra num acredita! Tinha um hómi lá sentado no chão, quietim, fumando um cigarrim de páia. Ele nem oiô pra mim, mas sabia que eu tava lá oiando pra ele. Terminô de fumá o cigarro, apago a bituca na parede, guardô no borso e levantô, oiando prá mim.

Dona, num preciso ele dizê nada e eu entendi o que ele queria dizê, saí de mansinho, de costa. Té parece, né, que eu ia mêmu ficá de costa prum hómi que some e traz os cavalo de vorta, assim, sem mais nem menos. Tô com medo dele dá sumiço nos cavalo e num aparecê mais. E se ele some cos porco tudo? Óia, dona, aí num vô podê mostrá pra sinhóra cumé que faz o tar do porco assado, matado cas facada no peito.

Se o hómi resorve matá tudo os boi, as vaca e as galinha na facada tamém, nóis fica sem leite, sem churiço, sem ôvo, sem nada! Prusque galinha nóis mata na facada tamém, mas é pra cortá o pescoço. Nela num dá prá dá paulada, não... A cabeça é miudinha, dona. Nóis degola mêmu. E o bão é que galinha num grita, né? Nóis num tem que ficá com dó. E nóis come achando que tá mais gostôso.

CHÊRO DE PÔRCO - História de Matuto II

Eu escuitei tudim, dona, escuitei o grito, quando a portêra abriu e escuitei tamém a portêra batê quando fechô. Vê mêmo, assim, num vi, não sinhóra. É que eu táva de costa pra de onde veio o grito, num deu tempo de virá e oiá. Quando oiei a portêra tava fechadinha, iguar eu tinha dexado ela de manhã. Eu num queria tê ido lá não, dona... Vai que o danado que tava fazendo arguma coisa visse que eu tinha visto ele fazendo o que tava fazendo lá? Coitadim de mim!

Mais que eu fui lá, isso a sinhóra já sabe, né. Larguei as vaca, os boi tudim lá no curral e subi pra cima da cochêra dos cavalo. Pois quando eu cheguei lá, num tinha nenhum cavalo, nem vivo nem morto! Se era pra tê? Diacho, que era, dona! Um monte deles! Tinha uma égua que inté tava prenha... Só num sei se o danado sortô ou se robô tudo os bicho, prusque se tivesse matado num ia dá tempo de levá embora, não. Isso eu te dô certeza que num ia.

Quando tem que matá os cavalo, é mais triste, sabe? Cavalo é bicho bão demais, dona! O coitado sofre muito prá morrê... Tem que amarrá as pata, derrubá o bicho no chão e dá a tar facada no peito... Pode inté derrubá com paulada na cabeça, mais tem que sê paulada certêra e forte. Tem uns coroné que mata só com injeção, mas isso é mardade e nóis num faiz isso não. É na facada mêmo... Prá módi morrê honrado, sabe, dona?

E se eu falo pra sinhóra que num mataram nenhum, é prusque num tava com chêro de porco, dona. É que sangue seco na páia tem chêro de porco. O dia que nóis matá porco vô guardá um pôco de páia suja de sangue seco prá sinhóra cherá, vai vê que tô falando coisa certa.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

GRITO DE PÔRCO - História de Matuto I

Óia, moça... Ocê fica sabendo que o que eu vô contá pra sinhóra tem muita importância. Mais ocê num pode contá prá ninguém, nem prá mãe do céu a sinhóra não pode abri a boca! Prusque se a sinhóra falá arguma coisa, vão sabê que fui eu que falei. O ruim é que é verdade, prusque se num fosse, óia que eu nem ligava, viu?!

É assim... Eu tava lá cuidado dos boi tudo, dando comida pros bezerro e tirando leite das vaca quando eu escuitei uns grito, sabe? Parecia inté quando nóis mata porco, que o bicho grita por demais. Mais num pensei que podia sê o que era. Parei de tirá leite das vaca e fiquei escuitando pra vê se tinha ôtro grito, mais num teve, não.

Foi um grito só, moça... Que nem quando nóis acerta o coração do porco na primêra facada, sabe? Ele grita uma veizinha só prá nunca mais... Aí quem grita é nóis de alegria depois que ele tá assado no fogão de lenha que nóis tem lá em casa.

E quando a moça quisé, passa lá em casa que nóis faiz um porco no fogão de lenha. Prometo prá dona moça que ele grita uma veiz só.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SAUDADE DE BONECO


Eu senti saudade.
Saudade do tempo que as coisas eram bem maiores, saudade de quando eu não alcançava o balcão da padaria. Saudade de quando os degraus da escada me serviam de mesa e cadeira para um escritório onde a única atividade era escrever baboseiras e grampear folhas. Saudade das panelas de plástico, das roupas cor-de-rosa, do sofá marrom, da cama cheia de bichinhos de pelúcia.

Obrigada por me propiciar este momento!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DESPEDIDA


...não vou ouvir o que a sua boca suja tem pra me dizer... nada que venha de você me interessa... palavras insanas! você é insana! louca! deprimente... não põe a mão em mim! fica longe! o calor do ar que você expira me dá ânsia; não dá pra ficar perto, não dá pra olhar na tua cara! esses olhos me enojam, você me dá nojo por inteiro... vai pra lá, não me toca! seus dedos moribundos, sua pele asquerosa não vai me contaminar.... eu não quero sentir que você pode estar por perto... alma podre, fétida! você é fétida... viver é demais pra você... sai daqui! já disse pra não colocar sua mão desgraçada em mim! vai pro inferno!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ALERTA


Seu grito de socorro tinha sido estrondoso e o bairro ao redor tremeu com seus agudos. Ninguém se mexeu e ela já esperava por isso: sabia que não teria ajuda. Mas ainda assim gritou mais alto, quem sabe estaria passando algum policial por ali, alguém que tivesse farda, alguém que tivesse condições de fazer algo. Nada. Ela via as sombras de quem passava na rua da frente, nao eram muitas, mas o suficiente.

Sua mão não cabia entre as grades de ferro, seus dedos entalavam. Não havia jeito. Perdera de vez. Desistiu. Seu pirulito ficaria pra sempre no asco do bueiro.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

PRA VOLTAR ATRÁS

Ao abrir os olhos, deitada na cama, teve a chance de recuperar 10 anos de sua vida. De frente com a morte decidiu mudar, e na certeza de seu fim, cegou-se. Os móveis, as roupas, as pessoas estavam como eram há 10 anos atrás. Olhou para o lado e viu Pedro, aquele que renegou cruelmente naquela manhã de sábado, da p
rimeira vez que a vivera. Mas agora seria diferente, pois ficaria com ele e tudo seria muito diferente.

De fato, foi.
Quis tanto agradá-lo que o sufocou. Tudo que fazia, fazia por ele e nada além disso. No cinema, o filme que Pedro gostava; na janta, seus praos preferidos já começavam a enjoá-lo. Tanto que fez, que o perdeu. Ela não se deu conta de que era a dona da sua própria vida e que um passo poderia mudar toda a sua história.

domingo, 10 de outubro de 2010

CAVAQUINHO


Ao som do cavaquinho, meus dedos pulam nas teclas do computador. Nada a declarar, eu poderia dizer, mas também não teria motivos para afirmar que não há o que se dizer. Apenas não há nada; ao redor, somente as notas estridentes do instrumento.

Tela que brilha e me dói os olhos, nada de real produzo com a combinação do pensamento e da escolha das palavras. Não há tema, porque ainda não há o que queira sair no papel. Ninguém tomou forma ainda, nenhuma história se formou. Apenas o barulho da música no meu ouvido.

Aviso de baixa bateria é desculpa para não mais tentar e desligar tudo, até a pulsação da mente. Pequenas bolinhas de luzes verdes e vermelhas se apagam e a tela que antes brilhava encomodamente, agora é preta e reflete olhos castanhos e semblante abatido. Ao fundo, o cavaquinho tocado em ritmo de samba enredo é o único escape para a alegria contida nos corações.

sábado, 9 de outubro de 2010

DIARIAMENTE


De norte a sul, de leste a oeste, ele sai do Oriente para chegar ao Ocidente. Dorme aqui, enquanto acorda acolá. Não tem pressa, é exibido. Vê todos girando, mas gosta quando giram em torno de si. Ninguém sente sua falta; passa inverno, primavera e no mesmo ponto ele está outra vez.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

BISCOITOS DA VÓ JANDIRA

 
Justo naquela tarde ele aparece. E Álvaro realmente queria comer toda a fornada de biscoitos. Restava só um punhado deles, mas sabia que sua mãe ficaria muito brava se comesse tudo. Mas ela nem conhecia a sensação de comer biscoitos porque vivia em dietas (e dietas não permitem biscoitos).

Pra que vocês entendam a gravidade da coisa: tratava-se dos quitutes da melhor cozinheira de todo o mundo, que era a vó de Álvaro, Dona Jandira. Ela tinha mãos de ouro! E só visitava o menino uma vez por ano. Ele ansiava meses e meses por aquele cheirinho, aquele sabor irresistível. Era capaz até de comer duas, três receitas seguidas!

Na soleira da porta, parado, Álvaro só conseguia achar que foi a sorte sua mãe não ter atendido à campainha naquela vez. Sabia lidar com as crianças, pois ele mesmo era uma. Sua mãe, não; ela só sabia dar broncas. Já pensou se ela encontrasse o filhote de crocodilo ali, batendo à porta aquela hora? Atrapalhar a sessão da tarde que ela tanto gostava só para pedir biscoitos seria um motivo e tanto para um bom castigo...

Isso não importa agora. O fato é que os dois, Álvaro e o crocodilo ainda estavam na porta, parados: um querendo biscoito e o outro pensando se ia dar ou não.

Aos poucos, o menino foi se decidindo quanto ao pedido: lembrou do quanto era gostoso o momento da mordida que sempre trazia uma sensação diferente. E aqueles eram, justamente, os biscoitos fresquinhos feitos pela vó Jandira.

Sem fazer barulho, Álvaro começou, então, a andar para trás, passou o batente, se agachou, colocou o pote de biscoitos no capacho e fechou a porta.

É que Álvaro sabia que toda criança, ainda que seja criança-crocodilo (ou crocodilo-criança), merece e precisa comer biscoitos. Ainda mais quando são os biscoitos da vó Jandira.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ASSIM É NANA

Naná é uma menina de 8 anos, mas demonstra ter bem mais idade. Por morar com a mãe na fazenda, sempre a ajudou nas tarefas que lhe eram possíveis, como dar comida aos animais, plantar, adubar, regar e colher os legumes e as verduras da horta, a limpar a casa e até a lavar e passar roupas. É claro que a mãe de Naná não a deixava passar com ferro muito quente, porque, mesmo prendada, Naná ainda mantinha um espírito de criança - e criança bem estabanada por sinal.

Ela conhecia muitos chás, muitas sopas e também muitos doces que sua mãe, aos poucos, lhe ensinava. Sabia as propriedades de muitas plantas e alimentos, conhecia as flores e sabia a hora do dia só pela altura do Sol. Sabia onde era norte e sul porque no topo da casa da fazenda havia uma rosa dos ventos que sempre esteve lá.

De esperta que era, a menina conhecia os caminhos da fazenda, os atalhos para o lago e onde achar as flores mais bonitas e a fonte com mais mais olhos d'água. Sabia também de uma clareira com uma árvore enorme que tinha um galho que mais parecia uma cama. Ela ia lá sempre que queria ler muito. Na verdade, Naná não lia nada, mas adorava pegar livros e livros para ver as imagens rodeadas por pequenos rabiscos que sua mãe já havia lhe dito que se chamavam letras. O próprio nome Naná já escrevia: era fácil de decorar porque só tinha dois símbolos pra aprender. A palavra "mãe" ela também conhecia, mas como nunca precisou escrever um único bilhete para a à mãe, estava quase esquecendo da ordem das letrinhas.

Entre tantas brincadeiras que tinha aprendido, a que mais gostava era esconde-esconde. Nunca perdia! Até em toca de coelho ela entrava, porque sabia quais estavam vazias e quais ainda abrigavam a família de coelhos. Ela explorava os troncos ocos de árvores, os galhos fáceis de subir, os barrancos, todos os cantos da fazenda ela conhecia. Ela sempre precisava descobrir novos esconderijos, pois como brincava sempre com a mãe, esta já tinha decorado alguns e por isso Naná precisou tirá-los da sua lista de boas opções.

Tinha uma senhora bem velhinha que morava na fazenda do lado. Dona Zuleica. Como a casa dela era bem pequena, a menina a ajudava a cuidar. Não era muita coisa, não: somente a horta era atividade dela, o que fazia com muito prazer. Em troca, a velhota a ensinava sobre histórias de muito antigamente, histórias que nem mesmo a mãe de Naná conhecia. Ela contava sobre piratas e tubarões, sobre reis, príncipes e bandidos e sobre muita gente que ela mesma tinha ajudado ao longo da vida. Os chás mais fortes era a senhora que havia ensinado à Naná e sempre que sua mãe ficava um bocado doente, a menina tirava umas folhas daqui, fazia um preparado dali e logo a mãe estava de pé de novo, sem um sintoma nem de resfriado.

Naná sonhava dormindo e também acordada. Nos sonhos que tinha à noite, ela lutava contra os bandidos sobre um cavalo, empunhava uma espada, com colete de argolas de ferro, com botas de couro e capacete de metal forte. Sonhava que defendia a rainha do castelo e jamais tinha perdido uma batalha. Ela compunha o exército de uma mulher só. E sempre sonhava bem parecido com as histórias que Dona Zuleica contava. Quando de olhos abertos, Naná que era a princesa: tinhas vestidos lindos que sua mãe costurava, banquetes de frutas todos os dias, uma cama inteira só para ela e um jardim que parecia mesmo de palácio de princesa.

Naná não sabia o que era um negócio que chamavam por aí de dinheiro. Até onde sabia, era um pedaço de papel que algumas pessoas achavam que era muito importante. Um dia passou um homem montado em uma charrete que estava oferecendo para a mãe de Naná uma caixa de madeira e metal que falava, mas logo a mãe disse que não queria. Quando a menina perguntou o que a tal caixa falava, o moço respondeu que falava de tudo e que até cantava! Como a menina sabia um montão de músicas, imaginou que soubesse até mais que a tal caixa e não quis nem saber. O homem foi embora achando que as duas eram muito esquisitas...

Naná era uma menina com a pele queimada de sol, mas muito bem hidratada pela água pura do lago. Seus cabelos longos e castanhos eram ondulados como o da mãe, compridos até a cintura. Viviam soltos e bem penteados, pois eram o orgulho da menina. Unhas sempre cortadas, dentes brancos como leite e olhos castanhos da cor da terra. Sua mãe dizia que era os olhos do pai, que Naná nem chegou a conhecer, nem por foto.

A menina comia de tudo, brincava e falava de tudo. E falava o tempo todo. E também com todas as coisas. Falava com formiga, com semente, com panela, com portão.
O dia em que sua mãe virou estrela, ela começou a falar também com o céu.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

CRIANÇA, BISCOITO E CROCODILO

“Ah, vai me dizer que o que você quer mesmo é só um pouco de biscoitos?”

Lucy estava crente que seu amigo não estava sendo sincero. É óbvio que ele queria brincar também, mas não entendia porque ele cismava em dizer que não. Como é que pode uma criança não querer brincar?

A menina era esperta e conhecia uma porção de brincadeiras que dava pra fazer só com duas pessoas, como amarelinha, mão-na-mula e até aquelas inventadas na hora eles podiam fazer. Era só dar as mãos e...

“Vem! Pára de ser bobo. Vai, fala uma brincadeira!”

Mas seu amigo continuava parado, esperando pelos biscoitos. Ainda que ele não tivesse aberto a boca para falar, Lucy pensou que ele pudesse ter dito que queria pular corda e foi correndo buscar as duas que estavam guardadas no seu quarto. Quando chegou, seu amigo estava com a mesma cara de antes, tão imóvel quanto, torcendo para que ela voltasse com os tais biscoitos, em vez da corda.

“Escuta, se você é criança, tem que gostar de brincar! Porque se você não gosta, significa que...”

Estalo na cabeça!

Lucy percebeu, então, que seu amigo não era criança e por isso não queria brincar; mas gostar de biscoito também é coisa de gente pequena e isso confundiu a cabeça de Lucy. Que amigo estranho ela foi arrumar...

“Ah, é. Tinha esquecido que você é só um crocodilo. Esqueci que você não consegue pular corda.”

Em instantes, a menina já estava com os tais biscoitos pro crocodilo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

ÓRFÃO

 
Debaixo do sol de fim de tarde, ele caminhava estacionamento adentro, sem saber ao certo para onde, de fato, estava indo. As lentes escuras do óculos cobriam seus olhos baixos e avermelhados. Naquele dia, tudo parecia insoso.

Suas pernas ainda eram capazes de controlar os próprios movimentos, mas desde o primeiro passo depois da despedida já apresentavam um leve tremelicar, uma após a outra, quando cruzavam-se em curtos passos.

Medo. Ele se sentia só, mas não de todo abandonado, pois seu filho lhe prometera, durante o abraço forte que trocaram entre si, que ligaria dia sim, dia não e que, ao final de cada semana enviaria um resumo do que havia feito, das novidades que havivia vivido.

Entretanto, ele também se sentia um tanto quanto realizado ao ter sido capaz de ofertar tão importante ferramenta para seu caçula. O último dos herdeiros partiria deixando na mente de seu pai a sensação de missão cumprida e, no peito, a angústia fraterna da saudade.

O barulho do levantar do vôo do avião soou como uma lâmina enferrujada cortando, com grande dificuldade, o cordão umbilical entre pai e filho: uma relação baseada em muito mais do que apenas o parentesco genético.

Enquanto remexia as mãos no bolso à procura das chaves do carro, lembrava nitidamente da imagem das malas na esteira, lentamente sumindo, todas etiquetadas, rumo a quilômetros de distância – distância essa que os separariam por seis meses.

Seis meses. Seis longos meses que ele viveria no escuro e na liberdade de ser tudo o que optasse por ser. Tudo, menos pai. Não exerceria seus cuidados, não daria suas broncas, não sentiria o cheiro do filho. Nesse tempo, seus passos seriam rápidos, o trânsito mais acelerado e caótico, seu coração mais aflito.

Seria pai órfão de filho.

Entrou no carro, ligou o rádio na terceira estação e, durante todo o caminho de casa, viveu a mais profunda melancolia.