quinta-feira, 2 de junho de 2011

Adeus... .:. A dona da janela .:.





 Não, não direi adeus, como quem vai para sempre.
Direi adeus como despedida, como transformação desejada e positiva. É para melhor.

Não é o adeus um passo para o abandono, para a tristeza da eterna saudade.
É o adeus recomeço, passo para o novo mundo.

Se sentires saudade, não hesite! Venha ao meu encontro...

Eu sou a .:. Dona da Janela .:.



quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

HAICAI


O sol se faz rouco.
Pela primavera fria
No céu, para sempre.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

DÚVIDA


Compreendo
nem tudo o que reluz é ouro.
mas será mesmo
que o ouro sempre reluz?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

FRACASSADO


Ele estava realmente desesperado. Pra onde quer que lançasse seus olhos, nada lhe voltava com esperança. O medo lhe tomava por inteiro, a angústia lhe abatia co a força de um elefante. Defendia-se de si mesmo, lutava contra o auto-boicote, tentando, em vão, boicotar-se primeiro. Mas já não era mais tão fácil. Precisaria de ajuda e das fortes. nada que houvesse na Terra seria capaz de lhe dar segurança ou mesmo a falsa modéstia de ser capaz de seguir em frente. Ele estava fadado ao fracasso e sabia disso.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MORRENDO DE PÔCO - História de Matuto IV

Eu lembro como se fosse hoje, dona. Tava quase pra fora do celêro quando vi, bem no cantinho, lá do lado do hómi uma égua deitada, bem amuadinha. Foi aí que deu dó, a sinhóra precisava de vê... Tinha um fiotinho lado dela, mas táva morto, todo sujo de sangue, terra e páia. Deve de tê nascido morto já. E a coitada da égua tava sofrendo por demais, dava prá vê nos óio dela a tristeza do peito.

Eu num sei bem o que foi que aconteceu, não, mas acho que o grito que eu escuitei era dela, na horinha que viu seu fiote morto. Acho que os cavalo tudo deve de tê assustado e saíram correndo atrás da mãe que deve de tê arrastado o fiote prá pedir ajuda. E esse hómi aí deve de tê trazido os cavalo e as égua tudim de vorta.

Eu só num sei mêmo quem era o tar do hómi, môça. Nunca vi pelas região. Usava umas rôpa de pano surrado, chapéu de páia e tinha barba. Era um hómi véio já, negro de pele e pé descarço. Despois fiquei sabendo que anda por aí, cuidando dos bicho, das planta e dos rio. Mas que nunca na vida disse uma palavrinha com ninguém.

É difícil, numa situação dessa, moça, a égua sobrevivê. Ela vai morrendo de pôco em pôco. Num dá coragem de nóis matá, não. É dor de mãe, sabe? A sinhóra é mãe, dona? Eu tamém num tenho filho, não, mas mãe é mãe, né? Nóis respeita. Num importa se é de gente ou de bicho. Por isso que nóis num mata o porco na frente da mãe dele. Tem que tirá do chiquêro pra podê matá um, senão a mãe morre junto. E morre de desgosto.

A mãe do porco ataca nóis se pensá que nóis tâmo fazendo o que tâmu mêmo fazendo. Já vi gente que pra se defendê da porca, meteu a faca na barriga da coitada. Judiação! Perdeu o bicho e a carne tamém. Carne de porco num pode tá suja de sangue, prusque estraga e num dá prá comê. Prá fazê a bichinha pará de sofrê, nóis taca a facada no peito. Mas aí já é tarde, dona... Não tem mais porco assado prá comê.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

GALINHA NUM GRITA - História de Matuto III

Depois que eu desci de vorta, vortei pro curral pra terminá de tirá leite das vaca. E como num achei nada, num me procupei em oiá em vorta. Se a sinhóra soubesse e se eu soubesse tamém, nem tinha oiado, prusque deu dó de vê, dona...

Como eu vi? Óia, eu tive que vortá pra casa cos leite das vaca, né? O caminho tinha que passá pelo celêro dos cavalo, que é o mais perto, então eu fui. Minha Nóssa Sinhóra, tomei um susto, dona! Os cavalo tava tudim lá! E eu tinha acabado de vê cos meus próprio ôio que a terra há de comê... Num tinha nada, nada! E depois tinha tudo vortado, juro que num entendi o que tinha acontecido, não.

Dei de entrá lá e tomei ôtro susto que a sinhóra num acredita! Tinha um hómi lá sentado no chão, quietim, fumando um cigarrim de páia. Ele nem oiô pra mim, mas sabia que eu tava lá oiando pra ele. Terminô de fumá o cigarro, apago a bituca na parede, guardô no borso e levantô, oiando prá mim.

Dona, num preciso ele dizê nada e eu entendi o que ele queria dizê, saí de mansinho, de costa. Té parece, né, que eu ia mêmu ficá de costa prum hómi que some e traz os cavalo de vorta, assim, sem mais nem menos. Tô com medo dele dá sumiço nos cavalo e num aparecê mais. E se ele some cos porco tudo? Óia, dona, aí num vô podê mostrá pra sinhóra cumé que faz o tar do porco assado, matado cas facada no peito.

Se o hómi resorve matá tudo os boi, as vaca e as galinha na facada tamém, nóis fica sem leite, sem churiço, sem ôvo, sem nada! Prusque galinha nóis mata na facada tamém, mas é pra cortá o pescoço. Nela num dá prá dá paulada, não... A cabeça é miudinha, dona. Nóis degola mêmu. E o bão é que galinha num grita, né? Nóis num tem que ficá com dó. E nóis come achando que tá mais gostôso.

CHÊRO DE PÔRCO - História de Matuto II

Eu escuitei tudim, dona, escuitei o grito, quando a portêra abriu e escuitei tamém a portêra batê quando fechô. Vê mêmo, assim, num vi, não sinhóra. É que eu táva de costa pra de onde veio o grito, num deu tempo de virá e oiá. Quando oiei a portêra tava fechadinha, iguar eu tinha dexado ela de manhã. Eu num queria tê ido lá não, dona... Vai que o danado que tava fazendo arguma coisa visse que eu tinha visto ele fazendo o que tava fazendo lá? Coitadim de mim!

Mais que eu fui lá, isso a sinhóra já sabe, né. Larguei as vaca, os boi tudim lá no curral e subi pra cima da cochêra dos cavalo. Pois quando eu cheguei lá, num tinha nenhum cavalo, nem vivo nem morto! Se era pra tê? Diacho, que era, dona! Um monte deles! Tinha uma égua que inté tava prenha... Só num sei se o danado sortô ou se robô tudo os bicho, prusque se tivesse matado num ia dá tempo de levá embora, não. Isso eu te dô certeza que num ia.

Quando tem que matá os cavalo, é mais triste, sabe? Cavalo é bicho bão demais, dona! O coitado sofre muito prá morrê... Tem que amarrá as pata, derrubá o bicho no chão e dá a tar facada no peito... Pode inté derrubá com paulada na cabeça, mais tem que sê paulada certêra e forte. Tem uns coroné que mata só com injeção, mas isso é mardade e nóis num faiz isso não. É na facada mêmo... Prá módi morrê honrado, sabe, dona?

E se eu falo pra sinhóra que num mataram nenhum, é prusque num tava com chêro de porco, dona. É que sangue seco na páia tem chêro de porco. O dia que nóis matá porco vô guardá um pôco de páia suja de sangue seco prá sinhóra cherá, vai vê que tô falando coisa certa.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

GRITO DE PÔRCO - História de Matuto I

Óia, moça... Ocê fica sabendo que o que eu vô contá pra sinhóra tem muita importância. Mais ocê num pode contá prá ninguém, nem prá mãe do céu a sinhóra não pode abri a boca! Prusque se a sinhóra falá arguma coisa, vão sabê que fui eu que falei. O ruim é que é verdade, prusque se num fosse, óia que eu nem ligava, viu?!

É assim... Eu tava lá cuidado dos boi tudo, dando comida pros bezerro e tirando leite das vaca quando eu escuitei uns grito, sabe? Parecia inté quando nóis mata porco, que o bicho grita por demais. Mais num pensei que podia sê o que era. Parei de tirá leite das vaca e fiquei escuitando pra vê se tinha ôtro grito, mais num teve, não.

Foi um grito só, moça... Que nem quando nóis acerta o coração do porco na primêra facada, sabe? Ele grita uma veizinha só prá nunca mais... Aí quem grita é nóis de alegria depois que ele tá assado no fogão de lenha que nóis tem lá em casa.

E quando a moça quisé, passa lá em casa que nóis faiz um porco no fogão de lenha. Prometo prá dona moça que ele grita uma veiz só.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

VONTADE


Em meio a tantos planos, um dia, ele realmente acreditou que poderia ser feliz ao lado dela.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SAUDADE DE BONECO


Eu senti saudade.
Saudade do tempo que as coisas eram bem maiores, saudade de quando eu não alcançava o balcão da padaria. Saudade de quando os degraus da escada me serviam de mesa e cadeira para um escritório onde a única atividade era escrever baboseiras e grampear folhas. Saudade das panelas de plástico, das roupas cor-de-rosa, do sofá marrom, da cama cheia de bichinhos de pelúcia.

Obrigada por me propiciar este momento!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DESPEDIDA


...não vou ouvir o que a sua boca suja tem pra me dizer... nada que venha de você me interessa... palavras insanas! você é insana! louca! deprimente... não põe a mão em mim! fica longe! o calor do ar que você expira me dá ânsia; não dá pra ficar perto, não dá pra olhar na tua cara! esses olhos me enojam, você me dá nojo por inteiro... vai pra lá, não me toca! seus dedos moribundos, sua pele asquerosa não vai me contaminar.... eu não quero sentir que você pode estar por perto... alma podre, fétida! você é fétida... viver é demais pra você... sai daqui! já disse pra não colocar sua mão desgraçada em mim! vai pro inferno!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

PÚBLICA


Ela enrolava suas poucas roupa, como se espaço lhe fosse um problema. Juntava a calça pelas costuras, ajeitava com presteza, e enrolava. Mas desenrolava e o fazia até que se sentisse satisfeita com o resultado. Depois enfiava na sacola plástica, ajeitando para que pudesse guardar o restante, o que, aliás, não era muito.

Sentada na porta de uma loja, local que considerava sua própria casa, ela dobrou os cobertores que lhe serviam de colchão, e guardou no carrinho que pegou da porta de um supermercado popular. Com dificuldade se levantou e serviu um pouco d'água para seu companheiro. Ele não lhe ajudava muito, pois a vida o castigou demasiado forte; até que tentava guiar o carrinho, mas ela logo o enxotava da direção.

Eram 7AM e ela já estava de pé, naquela manhã quente, com finos raios de sol. Suas vestes eram as mesmas de ontem, de anteontem; eram as mesmas desde que perdera a casa na enchente. Até que não era tão infeliz quanto as pessoas, que por ali passavam, pensavam. Ela mesma pensava que mais difícil era quando tinha que dividir o coletivo lotado; Agora a única coisa que dividia com os outros era a calçada. Ainda assim, ocupava pouco espaço, pois eles dormiam bem juntinhos, pra espantar o frio cortante da madrugada.

Orgulhava-se do seu casamento, dos tantos anos que compartilharam a vida. Orgulhava-se, principalmente, de sentir que ele lhe acompanharia até a morte, ainda que a primeira fosse a dela. Sabia que ali estava o homem da sua vida; ele era o homem de toda e qualquer vida que ela poderia ter.


A vez em que o guarda pediu que desocupasse o local, sentiu-se envergonhada. Mas no dia seguinte estava lá, novamente. Não conseguiu enxergar nenhum crime: apenas dormia e antes de sair, deixava a calçada mais limpa do que quando chegara. Que mal poderia ter?

Então naquele dia ela esperou pacientemente a loja abrir às 9AM e pediu, educadamente, para falar com o gerente. Ainda que hostilizada, não perdeu a compostura e aguardou até que ele viesse ao seu encontro. Disse-lhe que jamais apresentou nenhum perigo ou encômodo aos clientes da loja, pois sempre estava muito longe quando o comércio abria. Não era justo, portanto, que a tratassem dessa maneira. "Nunca mijei na sua porta!", disse ela, já um pouco alterada pela tristeza que lhe abatia.

O lojista pediu-lhe desculpas, disse que orientaria o guarda a não mais importuná-la e que se o que ela queria era somente dormir, sua permissão para dormir na calçada estava dada. Ela não pode se conter... "Permissão?", ela gritou; "Permissão? Pública! Ela é pública! Sua calçada e a minha cama são públicas!"